- Lua Malakian
O amor vem e entra no espaço que existe entre você e a sua vontade de existir. o amor vem e, sorrateiro, habita seus pensamentos na aula de anatomia enquanto você observa ela comer um sanduíche de presunto. você ri e acha graça porque ela é atrapalhadamente incrível. o amor chega numa terça-feira chuvosa de mês nenhum. e ele abraça seu desejo enorme por mudança, por um teto mais confortável, por uma casa maior, por um lar. o amor é um lar. o amor chega até você numa época impensada, por vezes conflituosa, onde tudo que espera-se é o descanso. então o amor pula no seu ombro e é o próprio descanso.
o amor levanta uma haste no meio do seu peito em plena quarta-feira de cinzas. e ele te dá coragem para amar até o ácido das coisas, quando em meio à guerra você produz uma revolução e oferece a capacidade infinita de amar em outro alguém. o amor chega. e ele chega num dia cabal, sem muito alarde. ele chega e você de repente se olha no espelho e percebe que é capaz de amar tudo e todos ao seu redor; e que é dotado de capacidades indescritíveis de locação de vários-tipos-de-amor. o amor urge da necessidade que temos de nos apegar àquilo que emana paz, fé, crença. ele nasce da necessidade que temos de nos explicar, expor, expelir: quando você encontra outra pessoa que quer amar e você expele nela sua história, seu cheiro, seu livro favorito.
o amor vem e senta ao teu lado no ônibus. ele pega o mesmo metrô que você. ele esbarra e pede desculpas em um tom de aborrecimento. o amor nasce da conversa inóspita sobre os signos do zodíaco: quem diria que leoninos se dobrariam a aquarianos?
o amor nasce enquanto ele te canta uma música da banda mais bonita da cidade e você chora com tamanha graça. o amor é uma graça. o amor, menino, escala as montanhas da alma até chegar no cume. o amor, manso, sussurra no seu ouvido uma nova esperança. e ele avisa: é chegado o tempo.
