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Ao filho que já vive em mim antes mesmo de nascer.

Fico pensando… será que um dia serei mãe?

Será que vou ter a oportunidade e a nobreza de viver esse amor que dizem ser o mais puro do mundo? Muitas vezes me pego sonhando acordada, imaginando como seria ouvir uma vozinha me chamar de mãe, como seria olhar nos olhos de alguém que carrega parte de mim e parte da minha história. Esse pensamento me acompanha em silêncio, como se fosse uma chama acesa dentro de mim. Não sei quando, não sei como, mas espero que um dia Deus me conceda esse milagre. E quando esse dia chegar, filho, quero que saiba: você já foi amado muito antes de existir. Falar de você é falar de um sonho que ainda não se realizou, mas que já vive dentro de mim. Ser mãe é algo que sempre desejei com todo o coração e, quando penso em você, sinto que minha vida ganha um novo sentido, mesmo antes de te ter nos braços. É como se meu coração já soubesse que nasceu para isso: para ser seu lar, sua raiz, seu porto seguro. Todos os dias imagino o instante em que vou ouvir seu primeiro choro, segurar sua pequena mão e perceber que, finalmente, tudo se encaixou. Eu espero, com toda a força da minha alma, que você venha com os olhos que tanto pedi a Deus. Olhos cheios de luz, que expressem pureza e esperança, que guardem dentro deles o mistério da vida e a certeza do amor. Que sejam olhos que transmitam bondade e verdade, porque sei que o olhar é a janela da alma, e desejo que a sua alma seja infinita em amor. Também sonho que, ao crescer, você carregue em sua personalidade a essência da sua avó, a mulher que me ensinou tanto apenas com seu jeito de ser. Se você herdar o coração dela, terá uma força serena que não se explica, uma bondade que acolhe e uma sabedoria que guia. Quero que tenha o sorriso que cura, o jeito simples de tornar o mundo mais leve e a coragem de enfrentar a vida sem nunca perder a fé. Seria uma bênção sem medida ver em você o reflexo dela, continuando sua luz no mundo através de você. Filho, ser sua mãe será o maior presente da minha vida. Vou estar ao seu lado em cada passo, vou me orgulhar de cada conquista, pequena ou grande, e vou segurar sua mão em cada dificuldade. Vou ensinar o que puder, mas sei que você também será meu professor, porque os filhos têm o dom de transformar os pais e revelar neles forças que nunca imaginaram ter. Eu espero você com toda a paciência do mundo, porque sei que quando chegar, o tempo terá sido perfeito. Até lá, vou te carregar em pensamento, em oração, no meu peito cheio de amor. Você é promessa, é esperança, é futuro. É o sonho que me faz sorrir sozinha e o motivo que já aquece meu coração. E quando esse dia chegar, quando eu puder finalmente olhar nos seus olhos e te chamar de filho, vou compreender que a maternidade é, na verdade, o encontro mais sagrado entre o amor humano e o amor divino.

Te espero, meu amor.

Com toda a ternura do mundo,

Sua mãe.

  • Lua Malakian

Neste momento, me encontro sentada com uma caixa de memórias em minhas mãos. Consigo me lembrar de como foi conquistar cada uma delas: minha infância na casa de tia depois na minha avó, e finalmente sozinha, minhas primeiras amigas, meu primeiro amor; mas também me lembro da dor que ficou quando cada uma dessas coisas se foram, como se fossem grãos de areia durante uma ventania, deixando minha praia vazia, lotada de memórias boas e um fantasma que sempre me perseguiu me dizendo que era uma vergonha uma criança tão alegre ter virado isso.

Nos últimos anos, me vi sendo puxada para o fundo do oceano durante águas turbulentas. Eu lutava tentando pedir ajuda, mas ninguém vinha. Eu precisei encarar que naquele momento só eu poderia me livrar daquilo, então precisei entender o que estava errada para poder tentar nadar novamente à superfície. É tão difícil aceitar e confessar que sou lotada de inseguranças, pois sempre as associei à fraqueza e nunca quis ser fraca. Mas, analisando a minha vida nos últimos anos, tudo que mostrei foi como não ser forte; vi feridas que nunca cicatrizaram voltarem a sangrar; vi o fantasma da minha praia me atormentar novamente; tive que tentar estancar o sangue de cada ferida profunda pra tentar seguir, mesmo que fosse me arrastando. Eu entendi que tenho inseguranças que sempre estiveram ao meu lado e só foram aumentando ao longo do tempo. Eu sempre me cobrei e me culpei por cada coisa errada que acontecia em cada relação minha, sempre achei que eu fosse o erro de tudo. E talvez eu seja mesmo... Foi e é insuportável saber que precisei me moldar ao longo dos anos para tentar ser alguém que gostariam de ter na vida, tentar ser uma pessoa que eu não era para, pelo menos, alguém não me abandonar. Eu sempre tentei me encaixar em formas que nunca foram pra mim, tentei ter aprovação de quem nunca me achou o suficiente.  Sim, o problema sempre foi o fato de eu ouvir vozes que nunca deveriam ter existido, alimentar monstrinhos que consumiriam minha mente, enxergar minhas inseguranças como minhas únicas amigas de verdade, mas poxa, só me restou uma...Perder minha mãe e pessoas que amo, me mostrou o quanto eu precisava lutar por mim, pois eu não tenho ninguém ao meu lado para os meus momentos difíceis, ninguém nadaria por mim, ninguém mandaria minha mente calar a boca se não fosse eu mesma. Me decepcionei com muitas pessoas e entendi que elas não precisam fazer parte da minha vida. Vi a verdadeira face de muitas pessoas que sempre quiseram diminuir minhas lutas e dores, pessoas que me disseram que eu precisava ser forte quando o que eu PRECISAVA era apenas ser acolhida.

No momento, estou, com todas as minhas forças, tentando nadar novamente a superfície e, por mais difícil que seja, talvez eu consiga não afundar dessa vez...

Talvez a vida seja sempre assim, nadar contra toda correnteza, estancar suas feridas para tentar seguir... Talvez um dia tudo isso passe, talvez eu conviva com isso pra sempre, talvez eu consiga a amizade desse fantasminha.

Abraçando o mundo com toda minha força e mantendo o sorriso no lugar sob máscaras variadas alternando em cores. Lampejos de verdade perpassam o rosto enquanto tensiono mais uma vez a mandíbula e sustento a expressão mais neutra que dou conta - hoje.

É sempre sobre o hoje.

Furacões seguidos de tsunamis, vulcões acompanhados de terremotos, sou destrutiva e construtiva, porém não vou te deixar ver meus destroços; não vou te convidar para a sala de espera enquanto grito com os espelhos, engano bem, sem olhar a quem, entrego falas que convencem porque sou treinada para isso durante todo o tempo, a melhor forma de fazer com que não prestem tanta atenção em você é, provavelmente, esperar que ninguém te note. Ninguém nunca notou meu desastre, ninguém nunca viu que sou um apocalipse emocional ambulante, esbarrando em quinas e mundos sem discriminar; só não se engane pensando que lê um pedido de socorro, pois isso está muito longe de sê-lo; não se engane pensando que está lendo um pedido de ajuda desesperado, pois não te peço nada aqui, eu só te digo uma fração dos pensamentos que correm em minhas veias quando estou sozinha. Tento dia após dia equilibrar a balança entre a eu que atua e a eu que vive, a que se faz de inteira e a que aceita o vazio inevitável de existir; esbarro, sim, em mil perguntas e respostas, coisas não ditas e não feitas, em pura expansão de caos. Me perco nos caminhos e me encontro com a mesma confusão, tudo isso porque estou tentando me tornar outra coisa antes que perca a habilidade de ser mais que já fui. Há um novo apocalipse para surgir amanhã, tão destrutivo quanto o de hoje, porém ainda mais belo.

No fim do dia, a conclusão é ambígua e desajeitada: o fim do mundo é avassalador, mas também enche os olhos com suas cores em colisão. Sou feita de apocalipses que se transmutaram em novos universos, feita do caos que dá corpo aos meus medos e voz às minhas coragens.

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