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  • Lua Malakian

Querido vazio, a primeira vez que te encontrei eu nem sabia amarrar o meu cadarço, um dia eu estava dormindo na cama da minha mãe, e no outro a vi em uma caixa grande com flores e pessoas chorando, é uma daquelas lembranças que não passam por nada, eu lembro de olhar para o lado e perguntar a minha irmã:"por que a mamãe está em uma caixa?" Minha irmã não disse nada, somente me abraçou, e até hoje eu nunca vi ela chorar tanto. Naquele dia, antes de voltar para casa, minha irmã não parava de chorar e me olhar, ela não sabia como responder a minha pergunta. Minha mãe mal tinha 35 anos, era uma pessoa doce, gentil, amorosa, humilde e cheia de vida. Num dia ela estava sorrindo, no outro os brincos que ela usava estava guardados em uma caixinha de joias, e ninguém sabia o quanto ela amava eles. Não tinha o por que minha mãe está em uma caixa, e na ausência de um motivo, um bom motivo, a mente humana tem dificuldade de aceitar.

Querido vazio, eu costumava colocar culpa em você. Eu olhava no espelho, sentia sua presença e podia jurar que você estava sorrindo. Que outro motivo alguém teria pra assistir minhas tragédias se não pra rir da minha cara? Os dias viraram uma piada sem graça. Eu deixei de ser o protagonista, a vida se tornou um comercial de margarina e tudo que eu queria era trocar de canal, tipo estar numa foto que você não pediu para estar e ter que sorrir, eu me tornei um estrangeiro dentro da minha própria cabeça, eu sentia vergonha de sentir vergonha, eu tinha nojo da minha própria voz, e eu só queria que parasse. Eu olhava no espelho e via um fantasma cético; ele já não acreditava em nada. Nem no presente, nem no futuro, nem em si mesmo. A existência perdeu o sentido. Eu queria que você me explicasse: POR QUÊ? Mas você nunca dizia nada. Hoje eu entendo o teu silêncio. O vazio nunca traz respostas, o vazio é a pergunta.

Querido vazio, eu aprendi um truque novo. Eu descobri que não adianta tentar te preencher, não é completude o que você quer, porque ai você deixaria de ser vazio, e ninguém gosta de deixar de ser o que é. O que você quer é um pouco de atenção. Toda vez que você aparece, eu te imagino ser uma letra bem feia, pior que possamos imaginar, ai eu pego um PORQUÊ, amasso e dobro colocando em uma carta e te entrego. Às vezes é bem simples: "por que a vida vale a pena?" Ora bolas, porque hoje tenho o amor da minha vida. E tcharam... como num passe de mágica, você está em uma carta todo amassado e vai embora. Nem sempre é tão fácil, às vezes você não fica satisfeito com as minhas respostas. Quando é assim eu tento tirar um tempo para analisar melhor as suas questões silenciosas, afinal, convenhamos, você não merece ser ignorado. Nós não somos inimigos. Muito pelo contrário, você é a parte de mim que se importa. Eu desconfio, do fundo do meu coração, que por trás do seu lençol de silêncio não existe um abismo esperando para ser preenchido, e sim uma criança confusa que faz perguntas levemente estúpidas no meio de um velório. Por que a mamãe esta nessa caixa? Dentro de toda cabeça, por mais quebrada e caótica que seja, existe uma máquina de escrever novos porquês.

Querido vazio. A ausência do furo dá sentido à roda. Ausência da porta dá sentido à casa. A ausência entre acordes dá sentido ao ritmo. A absência é um mal necessário, e o silêncio tem muito a dizer, pra quem duvida, é só parar na beira de um rio e ouvir. Querido, maldito, infinito vazio; depois de muito chorar, depois de muito sofrer, hoje sou eu que procuro você.

  • Lua Malakian

Pânico. Medo. Falta de ar. Sensação de morte.

Foi isso que eu senti quando me perdi, quando tudo que sentia era a falta de mim e o excesso dos outros. Essa dor que faz parte de mim e eu jamais entendi o porquê, antes de quase me perder, é claro. E agora, tenho lutado constantemente para me encontrar. Esquecer que as pessoas, por mais confusas ou perdidas, podem cuidar de si mesmas. Estou tendo que aprender a me priorizar, porque jamais fiz isso. E entender que por mais empática que eu seja, por mais que eu tenha usado o meu tempo para ajudar os outros, não devo esperar que façam o mesmo por mim. Até porque não fiz esperando nada em troca. E sim porque essa já é uma característica da minha personalidade: enxergar nas pessoas o que elas fingem não ver, me preocupando demais em tirá-las do precipício e quando me dei conta, era eu quem estava no fundo do buraco. Talvez esse tenha sido o momento que me perdi e me senti apavorada. Totalmente lúcida desejando que tudo aquilo fosse um pesadelo, mas não era. Era o escuro. Um dos lugares mais sombrios que já tive o desprazer de visitar. Lá, o vento corta. O frio machuca. A solidão aperta. Você grita. Só existe uma única voz presente nessa escuridão: O eco. E você a escuta lentamente vindo lá do fundo. São os resquícios da sua própria corda vocal. Nesse exato instante, você descobre que está sozinho. Não há ninguém para retribuir tantas ações boas que um dia você já fez. Você começa a questionar a existência da divindade e ao mesmo tempo vários questionamentos inundam a sua mente: Porquê eu? Porquê comigo? O que eu fiz para merecer isso?. Silêncio total. Ninguém vai te responder. Porque a resposta que você procura, só aparece depois de enfrentar tudo isso, e ela é única e absoluta: Você esqueceu de se amar. Viveu pelos outros e anulou sua existência: Esqueceu de viver por você. Esse foi o choque final. Foi ali, sozinha, abandonada, no frio, no escuro, com pensamentos mórbidos, que tomei a maior atitude da minha vida: Olhei pra cima. O fundo não parecia mais tão fundo, o clarão da luz tomou conta do escuro, a visão foi se tornando nítida novamente, tudo estava mais transparente, eu enxergava de novo, eu havia me encontrado. Um filme começou a rodar na minha cabeça em ordem cronológica: Da minha queda ao meu renascimento.

Dei pause.

Refleti sobre ele e um desejo me consumiu por dentro.

Era a minha hora de viver.

E dai apertei o play.

  • Lua Malakian

Quando você pensar em desistir, olhe para o lado que realmente importa, o lado de dentro, e então se pergunte qual é a sua razão maior, o seu porquê, o motivo que te fará mais forte e mais capaz do que qualquer porém. Do que qualquer pesar. E vai.

Quando você pensar em desistir por causa deles, olhe para eles, e se pergunte quando foi que você deixou de ser importante para si mesmo, quando foi que a imagem refletida do outro lado do espelho deixou de ser a sua, quando foi que opiniões, críticas e julgamentos de quem nunca realmente parou para te olhar de verdade invadiram a sua vida e domaram as suas escolhas dessa maneira. E então deixe ir o peso do outro. Foque no que te fortalece. Mire no que te faz leve. E vai.

Quando você pensar em desistir por causa das circunstâncias, se pergunte qual é o propósito de tudo, da onde vem o aprendizado, o grande legado, o motivo que te fará agradecer mesmo quando a tristeza vier. E então se concentre no lado bom de todas as coisas, na sabedoria do universo, na certeza de que amanhã é sempre outro dia e que não há sofrimento ou dificuldade que dure para sempre. E vai.

Quando você pensar em desistir por causa de si mesmo, se pergunte quem é você e qual é a sua missão nesse mundo. E então avalie se o desistir tem a ver com ser forte, sábio e consciente (porque às vezes desistir exige mesmo uma coragem imensa) ou se é só uma maneira covarde de fugir da batalha antes mesmo da luta. E se for por falta de tentativa, e se for por medos e receios de não ser capaz, encontre dentro de si mesmo a força que te move a levantar da cama todos os dias. E vai.

Quando você pensar em desistir por causa do tempo, se pergunte o que realmente importa na vida: a direção ou a velocidade. E então comece a olhar para todas as coisas com a curiosidade e a aventura da criança e a sabedoria e a experiência do idoso. Do tempo passado, pegue o que te faz melhor, inspire-se no que te faz sorrir, orgulhe-se das cicatrizes, colecione histórias, mas siga em frente. Do presente nasce o recomeço. E o tempo nos ensina que nunca é tarde demais. Agarre-se na infinidade do agora, seja presente de corpo, alma e coração. Faça sempre o seu melhor. Seja sempre o seu melhor. Não dê demasiada importância a um futuro que você nem sabe se vai chegar. Vista o seu melhor sorriso, confie na força da sua intuição. Arregace as mangas. Tire o sapato. Deixe o vento bater no rosto. Deixe despentear. E vai.

Quando você pensar em desistir, quando o barco virar e o mar estiver revolto demais, quando a única alternativa que restar de tudo isso for lutar ou morrer, agarre-se na sua fé, acredite no seu milagre, pule nas águas. E nade.

Quando você pensar em desistir, justamente porque não sabe nadar, olhe para o mundo com gana de herói, com olhos de quem desafia o impossível e faz valer a pena cada segundo da vida. E pula na água.

Quando a gente não sabe o que fazer, a gente aprende.

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